Quando se fala em consumo de água, os data centers viraram o novo vilão. Circulam estimativas alarmantes — uma consulta a um chatbot equivaleria a meio litro de água — e não demora para surgir a pergunta inevitável: faz sentido um prédio cheio de servidores gastar mais água do que fábricas inteiras de bebida ou do que um campo de golfe? Os dados oficiais respondem com clareza, e a resposta contraria o senso comum.
Sumário
O que os dados mostram sobre o consumo de água dos data centers no Brasil
O levantamento “Consumo de Energia e Água em Data Centers no Brasil”, publicado pela Brasscom em agosto de 2025 com apoio da ABDC (Associação Brasileira de Data Centers) e revisão técnica da FADURPE, é a referência mais robusta sobre o tema no país.
Segundo o estudo, o setor respondeu por 0,003% do consumo consuntivo nacional de água em 2022, aproximadamente 2 bilhões de litros. Para dar escala, esse volume equivale ao consumo anual de cerca de 34,9 mil pessoas (a uma média de 154 litros por pessoa/dia).
| Indicador (data centers no Brasil) | Valor | Ano / Fonte |
|---|---|---|
| Data centers em operação | 183 | 2026 — Newmark |
| Uso consuntivo de água | ~2 bilhões de litros (0,003% do total) | 2022 — Brasscom/ABDC |
| Equivalente humano | consumo anual de ~34.900 pessoas | 2022 — Brasscom |
| Capacidade de TI instalada | 843 MW | 2024 — Brasscom |
| Projeção de água (2029) | ~30 bilhões de litros (0,008%) | 2029 — Brasscom |
| Projeção de capacidade (2029) | 2.192 MW | 2029 — Brasscom |
Enquanto a indústria de transformação responde por cerca de 9,4% de todo o consumo de água do país, os data centers ficam na casa dos milésimos. Na comparação direta, o setor de tecnologia consome algo como 3.080 vezes menos água que a indústria de transformação, daí o título do próprio estudo.
Quanta água a indústria de bebidas consome no Brasil
A indústria de bebidas entra na conta por outro caminho: não é uma empresa isolada, mas um setor inteiro, com milhares de plantas espalhadas pelo país.
O Anuário da Cerveja 2026, do Ministério da Agricultura (Mapa), registrou recorde de 1.954 cervejarias em 794 municípios. A produção nacional gira em torno de 15,3 a 15,6 bilhões de litros por ano.
O ponto-chave é o consumo de água por litro produzido. A indústria cervejeira brasileira usa, em média, 2,4 a 4 litros de água para cada litro de cerveja. A Ambev chegou a 3,17 L/L e uma fábrica no Rio atingiu 2,39 L/L. O setor já reduziu o consumo em cerca de 40% em 15 anos, mas a ordem de grandeza se mantém.
| Indicador (indústria de bebidas) | Valor | Ano / Fonte |
|---|---|---|
| Cervejarias registradas | 1.954 (recorde, em 794 municípios) | 2026 — Anuário da Cerveja / Mapa |
| Produção de cerveja | ~15,3 a 15,6 bilhões de litros/ano | 2025 — Mapa |
| Água por litro de cerveja | 2,4 a 4 litros | 2015–2025 — Ambev / Diário do Rio |
| Água de processo (cerveja) | ~46 a 62 bilhões de litros/ano | cálculo sobre dados do Mapa |
| Redução do consumo por litro | ~40% em 15 anos | 2025 — Guia da Cerveja |
Fazendo a conta com a média central de 3,5 L/L: 15,5 bilhões de litros × 3,5 ≈ 54 bilhões de litros por ano — só para a cerveja, apenas a água de processo. Somando cachaça e outras bebidas alcoólicas, o total do setor chega facilmente a 60 a 80 bilhões de litros/ano.
Quanta água um campo de golfe americano consome
Aqui a régua muda de país: o Brasil não tem um levantamento nacional equivalente para campos de golfe, então a referência confiável é a dos Estados Unidos, onde a GCSAA (associação dos superintendentes de campos de golfe) mede o setor desde 2005.
O dado agregado é impressionante. Em 2024, os ~16.000 campos de golfe dos EUA aplicaram cerca de 1,63 milhão de acre-feet de água, o equivalente a ~2 bilhões de metros cúbicos por ano. Isso representa uma queda de 31% desde 2005, resultado de eficiência na irrigação e do uso crescente de água reciclada (hoje cerca de 25% de toda a água usada no setor).
| Indicador (campos de golfe nos EUA) | Valor | Ano / Fonte |
|---|---|---|
| Campos em operação | ~16.000 (15.963) | 2025 — NGF/USGA |
| Água aplicada no setor | 2 bilhões m³ | 2024 — GCSAA |
| Redução desde 2005 | 31% | 2025 — GCSAA |
| Área irrigada por campo típico | ~80 acres de gramado | USGA |
| Água reciclada no setor | ~25% do total | GCSAA |
| Média por campo | 125.000 m³/ano | cálculo sobre dados GCSAA |

O valor médio por campo fica em torno de 125.000 m³/ano, mas varia muito com o clima: campos em regiões frias e chuvosas usam menos de 1 acre-foot por acre (cerca de 80.000 m³/ano), enquanto campos irrigados em clima quente podem chegar a 250.000 a 340.000 m³/ano.
A comparação direta por instalação
| Consumo anual médio | Campo de golfe (EUA) | Cervejaria (Brasil) | Data center (Brasil) |
|---|---|---|---|
| Volume por instalação | ~125.000 m³ | ~28.000 m³ | ~11.000 m³ |
| Vezes o data center | ~11x | ~2,5x | 1x |
Um campo de golfe americano médio consome cerca de 11 vezes mais água que um data center brasileiro médio e 4 a 5 vezes mais que uma cervejaria média. A explicação é simples: a irrigação de gramado é uma atividade que espalha água sobre dezenas de hectares, o ano inteiro, com picos na estação seca.
A comparação direta: total anual
| Consumo anual total | Volume | Vezes os DCs do Brasil (2022) |
|---|---|---|
| Data centers do Brasil (2022) | ~2 milhões de m³ | 1x |
| Data centers do Brasil (projeção 2029) | ~30 milhões de m³ | 15x |
| Indústria de bebidas do Brasil (processo) | ~54 a 80 milhões de m³ | 27 a 40x |
| Todos os campos de golfe dos EUA | ~2 bilhões de m³ | ~1.000x |
A leitura agregada é ainda mais contundente: todos os campos de golfe dos Estados Unidos juntos consomem cerca de 1.000 vezes mais água que todos os data centers brasileiros, e de 25 a 40 vezes mais que a indústria de bebidas do Brasil. É claro que a comparação cruza países e realidades climáticas distintas, mas ela serve para dimensionar a ordem de grandeza de cada atividade.
EUA vs. EUA: a comparação mais justa
Para efeito de escala, vale a comparação dentro dos Estados Unidos. Em 2024, os cerca de 16.000 campos de golfe americanos aplicaram aproximadamente 1,63 milhão de acre-feet de água — quase 2 trilhões de litros por ano (GCSAA). No mesmo período, todos os data centers dos EUA consumiram cerca de 800 bilhões de litros, incluindo a água indireta usada na geração de eletricidade; apenas ~300 bilhões de litros são consumidos diretamente no resfriamento (Berkeley Lab, 2024). Ou seja: mesmo no país onde os data centers são mais numerosos, os campos de golfe aplicam 2,5 vezes mais água que todo o setor de data centers somado, e entre 6 e 7 vezes mais se olharmos apenas o consumo direto de refrigeração. O detalhe que pesa na balança ambiental: enquanto os data centers historicamente usam água potável de rede que evapora e se perde, a irrigação de golfe se apoia majoritariamente em água não potável; cerca de um quarto já vem de efluente reciclado.

Exemplos reais: data centers brasileiros que já operam com circuito fechado
A melhor prova de que o “vilão hídrico” é coisa do passado está nos próprios data centers brasileiros. Dois casos grandes e documentados mostram que é possível operar com consumo de água praticamente zero.
Ascenty — WUE igual a zero para refrigeração A Ascenty, uma das maiores operadoras de data centers da América Latina, tem 28 data centers no Brasil, sendo 25 só no estado de São Paulo. Todos operam com água gelada em circuito fechado, resfriada por chillers a ar: a mesma água circula por tubulações, absorve o calor dos servidores, volta ao chiller para ser resfriada e recomeça o ciclo, sem torres evaporativas e sem reposição significativa.
Segundo Marcos Siqueira, head de estratégia da Ascenty, o sistema garante WUE (Water Usage Effectiveness) igual a zero para refrigeração. A água é usada apenas para fins sanitários, monitorada diariamente com metas internas. Em entrevista à Gazeta de São Paulo, ele resumiu: “a mesma água é reaproveitada por muito tempo, sem desperdício”.
Equinix SP6 — sem sistemas evaporativos em Santana de Parnaíba A Equinix inaugurou em 2026 o SP6, novo data center na região metropolitana de São Paulo (Santana de Parnaíba), com investimento de US$ 114 milhões e projeto preparado para alta densidade de IA e liquid cooling. A unidade dispensa sistemas evaporativos: na prática, o uso de água no data center fica limitado às necessidades humanas (WUE = 0).
A companhia, que opera nove unidades no Brasil (seis em São Paulo e três no Rio), registrou em 2024 um WUE médio global de 0,95, bem abaixo da média da indústria (~1,8 L/kWh), e segue a estratégia de eliminar o consumo evaporativo nas novas construções.
O próprio estudo da Brasscom confirma a tendência: data centers modernos utilizam circuito de resfriamento fechado, e a estimativa do setor é de que um sistema fechado precise de apenas 23 mil litros de água por megawatt, uma fração mínima do que consome uma torre evaporativa tradicional.
Por que a comparação exige cautela
Os números acima são reais, mas comparam métricas diferentes, e entender isso é essencial para não distorcer o debate.
O uso consuntivo medido nos data centers corresponde à água que evapora nas torres de resfriamento e não retorna ao sistema hídrico. É o padrão oficial do setor e a métrica que a Brasscom adota e, como mostram os casos da Ascenty e da Equinix, nos projetos modernos esse consumo tende a zero.
Já o consumo das cervejarias, em sua maior parte, é água de processo (captação): a maior fatia vira efluente tratado e devolvida ao ciclo.
E os campos de golfe usam majoritariamente água que não é potável, cerca de 25% já vem de efluente reciclado, e a irrigação basicamente repõe a evapotranspiração natural da região. Ou seja, mesmo sendo o maior consumidor em volume, é o setor que menos compete pela água tratada de rede pública.
Há ainda uma quarta régua: a pegada hídrica total da cerveja, que inclui a água da agricultura da cevada e do lúpulo, na casa de 155 litros por litro de cerveja, elevaria o consumo do setor de bebidas para mais de 2 trilhões de litros/ano, superando até os campos de golfe.
O que muda até 2029
O estudo projeta que os data centers passem a consumir 0,008% da água do país em 2029, cerca de 30 bilhões de litros. O crescimento é grande em termos relativos, mas continua pouco significativo no balanço nacional.
Vale registrar o contraponto da eficiência: os projetos novos caminham para circuito fechado e resfriamento líquido, que reduzem drasticamente o uso de água. O liquid cooling, por exemplo, permite densidades acima de 100 kW por rack (contra 20 a 35 kW do ar-condicionado tradicional) e eficiência energética até 30% maior e, em sistemas avançados, reduz drasticamente o uso de água. Empresas como a Microsoft já anunciam instalações com “zero água” para resfriamento, com redução de mais de 125 milhões de litros por unidade ao ano.
Perguntas frequentes sobre consumo de água
Existe data center no Brasil que não consome água? Sim. A Ascenty opera 28 data centers com circuito fechado de água gelada e WUE igual a zero para refrigeração. A água é usada apenas para fins sanitários. A Equinix inaugurou em 2026 o SP6, em Santana de Parnaíba, sem sistemas evaporativos, com uso de água limitado às necessidades humanas.
Um data center gasta mais água que um campo de golfe? Não. Um campo de golfe americano médio consome cerca de 125.000 m³/ano, contra cerca de 11.000 m³/ano de um data center brasileiro médio. Ou seja, o campo de golfe usa cerca de 11 vezes mais água.
Um data center gasta mais água que uma cervejaria? Não. Uma cervejaria média brasileira consome cerca de 28.000 m³/ano, contra cerca de 11.000 m³/ano de um data center médio, sem contar que há dez vezes mais cervejarias que data centers no país.
Quanta água os data centers consomem no Brasil? Cerca de 2 bilhões de litros em 2022 (0,003% do consumo nacional), com projeção de aproximadamente 30 bilhões de litros até 2029.
O que é WUE? Water Usage Effectiveness é o indicador que mede a eficiência hídrica de um data center: litros de água consumidos por kWh consumido pela TI. Quanto menor, melhor. A média da indústria fica perto de 1,8 L/kWh, enquanto projetos modernos já operam abaixo de 0,3 L/kWh, e alguns, como os da Ascenty, chegam a zero para refrigeração.
A água usada em data centers é potável? Historicamente sim, o que gerou pressão em regiões áridas. A tendência atual é migrar para reúso de água e sistemas de circuito fechado que praticamente eliminam o consumo evaporativo. Os campos de golfe, por outro lado, já dependem pouco de água potável: cerca de 25% vem de efluente reciclado.
Conclusão
A ideia de que data centers “bebem” mais água que a indústria de bebidas ou que os campos de golfe não se sustenta nos dados. O setor de tecnologia responde por 0,003% do consumo nacional de água, contra ~9,4% da indústria de transformação, e a produção de bebidas alcoólicas, sozinha, consome 30 a 40 vezes mais água que todo o parque de data centers do país. Um único campo de golfe americano médio, por sua vez, usa cerca de 11 vezes mais água que um data center brasileiro médio.
E o cenário tende a melhorar: gigantes como Ascenty e Equinix já operam no Brasil com circuito fechado e WUE zero para refrigeração, provando que a infraestrutura física moderna pode praticamente eliminar o consumo de água. O ponto de atenção real não é o volume total, mas a concentração local: os data centers usam muita energia em pouco espaço e de forma contínua, o que pressiona o abastecimento em bairros e municípios específicos. A resposta da engenharia vem pela eficiência, WUE baixo, circuito fechado e reúso, e é aí que a infraestrutura física de um data center faz toda a diferença.
Fontes
- Brasscom — “Data centers consomem 3 mil vezes menos água que a indústria no Brasil”
- Brasscom — Estudo inédito sobre consumo de água e energia por data centers no Brasil
- Estudo completo “Consumo de Energia e Água em Data Centers no Brasil” (PDF)
- Tele.Síntese — cobertura do estudo da Brasscom
- Estadão — Data centers: avanço e desafios da infraestrutura (183 data centers em operação)
- Gazeta de São Paulo — Ascenty: refrigeração em circuito fechado e WUE zero
- Equinix Newsroom — Inauguração do SP6 em Santana de Parnaíba
- Ascenty Blog — Liquid Cooling em Data Centers
- Anuário da Cerveja 2026 (PDF, Mapa)
- Globo Rural — Recorde de cervejarias e queda na produção em 2025
- Guia da Cerveja — Indústria cervejeira reduz 40% do uso de água em 15 anos
- GCSAA — Golf Course Environmental Profile, Water Phase IV (PDF)
- GCSAA — Golf courses reduce water usage by 31 percent (2025)
- USGA — Golf’s New Narrative (15.963 campos nos EUA)
- USGA — How Much Water Golf Courses Need
